A reinvenção do brincar das crianças da cidade e província de Maputo durante a COVID-19
Reinventing the play of children in Maputo City and Province during COVID-19
Universidade Eduardo Mondlane, Faculdade de Letras e Ciências Sociais, Departamento de Sociologia, Maputo, Moçambique
Correspondência: carlotamondlane.tembe@gmail.com
Rev. cient. UEM: Sér. ciênc. soc. v. 6, n. 1, p. 43-61, 2026 · ISSN 2307-3918
Resumo
A pandemia de COVID-19, descoberta na China no final de 2019, espalhou-se rapidamente pelo mundo, impondo novos desafios à vida das pessoas. Moçambique não foi exepção e teve que implementar diversas medidas de prevenção e contenção do vírus, declarando estado de emergência em Março de 2020. Portanto, algumas medidas, como o encerramento das escolas, o distanciamento social, confinamento, entre outras, trouxeram mudanças significativas à vida das pessoas, especialmente das crianças. Com a medida "fique em casa", as crianças viram-se privadas ou impedidas de fazer o que tanto gostam, que é brincar, principalmente ao ar livre (na rua, no bairro, na escola, etc.). Com este artigo, pretendíamos identificar que tipo de estratégias as crianças e seus cuidadores adoptaram para reinventar a brincadeira no contexto da COVID-19. Por acessibilidade, identificamos algumas famílias cujos agregados incluíam crianças entre 6 e 14 anos. Obtivemos dados por meio de entrevistas semiestruturadas, observação não participante e conversas livres com adultos e crianças. O estudo mostrou que os cuidadores começaram a organizar uma rotina para as crianças, que incluíam brincar, estudar e actividades domésticas. O confinamento, em alguns casos, permitiu maior coesão entre pais e filhos, mas também trouxe consigo alguns desafios, como o uso crescente de celulares, televisão e outras formas de tecnologia pelas crianças, em detrimento de outras formas de brincar.
Palavras-chave: Brincar; covid-19; crianças; cuidadores; estratégias.
Abstract
The COVID-19 pandemic, discovered in China in late 2019, quickly spread throughout the world, imposing new challenges to people's lives. Mozambique was no exception, having to implement several virus prevention and containment measures, declaring a state of emergency in March 2020. Therefore, some measures such as the closure of schools, social distancing, and confinement, among others, have brought significant changes to people's lives, particularly children's. With the measure "stay at home", children found themselves deprived or restricted from doing what they love most: playing, especially playing outside (on the streets, in the neighborhood, at school, etc.). With this article, we intended to identify what kind of strategies did the children and their caregivers adopt to reinvent play in the context of COVID-19. By accessibility, we identified some families whose households included children between the ages of 6 and 14. We obtained data through semi-structured interviews, non-participant observation and free conversations with adults and children. The study showed that caregivers began to organize a routine for the children that included play, study, and household activities. Confinement in some cases allowed greater cohesion between parents and children, but also some challenges such as the increasing use of cell phones, television and other forms of technology by children to the detriment of other forms of play.
Keywords: Playing; covid-19; children; caregivers; strategies.
Introdução Topo ↑
Este artigo é parte de um dos capítulos da minha tese de doutoramento em curso com o título “o brincar das crianças da cidade e província de Maputo em três gerações”. Quando decorria a recolha de dados eclodiu a pandemia da Covid 19 e isso motivou-nos a explorar como é que as crianças reiventaram o seu brincar visto que, as restrições impostas, de algum modo, poderiam afectar esta actividade. Brincar faz parte da criança e é fundamental para o seu desenvolvimento. A brincadeira pode ser entendida como a descrição de uma actividade não estruturada, que gera prazer e que possuí um fim em si mesma e que pode ter regras implícitas ou explícitas (Cordazzo & Vieira, 2007, p. 93). O brincar é um acto genuíno e intrínseco. As crianças brincam não porque um adulto ou uma instituição definiu que brincar é um conteúdo curricular importante, mas porque é a forma como ela expressa os seus sentimentos, pensamentos e desejos (Leite, 2015, p. 64). Para Brougère (2004), brincadeira é uma actividade livre sem limitações, um espaço-tempo social que possibilita a criança se apropriar de códigos culturais e a socializar-se com pares, apropriando-se assim de conteúdos de sua cultura e atribuindo-lhes uma significação. De acordo com Leite (2015, p. 64), brincar é uma linguagem universal da criança e independentemente de sua condição social, a criança brinca como forma de se apropriar do mundo, do outro e de si mesma. Silva & Oliveira (2013) referem que brincar é a actividade mais frequente para a criança e contribui para o seu desenvolvimento humano. De acordo com Craemer (2015, p. 49), as brincadeiras não são somente importantes para as crianças, mas também podem contribuir para humanizar uma comunidade. Silva & Oliveira (2013), referem que brincando as crianças desenvolvem a sua imaginação, as relações entre elas e elaboram regras de organização e convivência. Através da brincadeira a criança constrói e reconstrói sua compreensão do mundo, amadurece sua capacidade de socializar por meio da interação utilizando e experimentando regras e papéis sociais presentes na brincadeira (Colling & Rausch, 2011; Modesto & Rubio, 2014). Estácio (2011), refere que é brincando que a criança se estrutura nas dimensões física, psíquica, biológica, social, cultural e histórica e estabelece relações a sua volta. Brincar é relevante, pertinente, e muito importante, principalmente, na infância, fase marcada por descobertas e aprendizagens diárias. Para brincar, a criança recorre aos brinquedos, jogos, a objectos disponíveis a sua volta, ela activa a sua imaginação, criatividade e muito mais. A teoria da reprodução interpretativa desenvolvida por Corsaro (2002), enfatiza a importância do brincar para a criança, pois, é brincando que a sua capacidade criativa é estimulada, por isso que esta teoria aborda a dinâmica da socialização das crianças, mostrando que as crianças no seu dia-à-dia criam e participam de suas culturas de pares singulares por meio da apropriação de informação do mundo dos adultos de forma a atender os seus interesses próprios enquanto crianças (Corsaro, 2009, p. 31). Tal apropriação é criativa na medida em que tanto expande a cultura de pares (transforma a informação do mundo adulto de acordo com as preocupações do mundo dos pares) como simultaneamente contribui para a reprodução da cultura adulta. Este processo de apropriação criativa pode ser visto como uma reprodução interpretativa, (Corsaro, 2002, p. 114). Corsaro (2009) refere que ainda que o termo reprodução significa que as crianças não apenas internalizam a cultura, mas contribuem activamente para a produção e a mudança cultural e ao mesmo tempo as crianças e as suas infâncias são afectadas pelas sociedades e culturas das quais são membros. A pandemia da Covid-19, pelas suas características, comprometeu de alguma forma a ocorrência efectiva das brincadeiras. Deste modo, as crianças tiveram que se reiventar para continuarem a praticá-la. A pandemia da Covid 19 impactou sobremaneira a vida das pessoas no geral, das crianças e particularmente no brincar das mesmas. O vírus conhecido como Novo Coronavírus (Covid-19) que acusa a Síndrome respiratória aguda grave, foi oficialmente detectada na cidade chinesa de Wuhan, província de Hubei entre finais de Dezembro de 2019 e meados de Janeiro de 2020 (Silva et al., 2020; Silva et al., 2022). Pela forma rápida com que se propagava o vírus caracterizado por um número elevado de contaminações e mortes em vários países e até provocando o colapso do sistema de saúde em vários países, fez com que a Organização Mundial da Saúde emitisse uma declaração de emergência de saúde pública de interesse internacional a 30 de Janeiro de 2020 e em 10 de Março de 2020 como Pandemia (Sidat & Jani, 2020; Silva et al., 2020; Silva et al., 2022). Mediante a situação, a 12 de Março de 2020, o Ministro da Saúde emitiu o Despacho no 3/GMS/2020 criando o Comité de Emergência ao nível do Ministério da Saúde com o objectivo de assegurar a coordenação à resposta à pandemia da Covid-19 e emergências decorrentes do período chuvoso e outros eventos de saúde pública.
O primeiro caso de Covid-19 em Moçambique foi detectado em 22 de Março de 2020 (Sidat & Jani, 2020, p. 107). Considerando que na altura o então novo coronavírus, responsável pela pandemia da Covid 19, já havia afectado cerca de meio milhão de pessoas no mundo e responsável pela morte de cerca de 30 mil pessoas, a 30 de Março de 2020 declarou-se, em Moçambique, o Estado de Emergência por razões de calamidade pública através do Decreto Presidencial no 11/2020 de 30 de Março (Boletim da República, 2020, I Série, n.º 61; Sidat & Jani, 2020; Silva et al., 2020).. Esta medida baseou-se na constatação da alta taxa de morbi-mortalidade, e ao impacto social económico negativo que a mesma provoca o que obrigou a implementação urgente de medidas de contenção da propagação da doença com vista a salvaguardar a vida e a saúde pública (Boletim da República, 2020). Para a prevenção e/ou combate da pandemia da COVID 19, incluíam de entre várias medidas o distanciamento físico e social, restrição de viagens, encerramento dos serviços não essenciais, a suspensão das aulas em todas as escolas públicas e privadas, desde o ensino pré-escolar até ao ensino universitário, proibição da realização de eventos públicos e privados, como cultos religiosos, actividades culturais, recreativas, desportivas, políticas, associativas, turísticas e de qualquer outra índole, excetuando questões inadiáveis do Estado ou sociais como funerais, devendo em todos os casos, serem adoptadas todas as medidas de prevenção emanadas pelo Ministério da Saúde (Boletim da República, I Série, n.º 61, 2020; Sidat & Jani, 2020; Silva et al., 2020; Silva et al., 2022). E a partir dessa altura o lema era “fica em casa”, uma vez que houve limitação na circulação interna de pessoas em qualquer parte do território nacional bem como ao confinamento de pessoas ao domicílio ou estabelecimentos adequados com objetivos preventivos (Boletim da República, I Série No 61, 2020).
As crianças foram o grupo menos afectado directamente pela infecção da Covid-19 ao nível mundial, quando comparado com as populações mais idosas (UNICEF, 2020). No entanto, como os efeitos indirectos das medidas de combate à pandemia se reflectem nas realidades sociais e económicas das cidades e comunidades, os impactos a curto, médio e longo prazo nas crianças e adolescentes não podiam continuar a ser ignorados (UNICEF, 2020). Não só existem ameaças directas à saúde devido ao vírus, como também existe um grave impacto secundário nas crianças no que diz respeito à educação; à protecção; à água, saneamento e higiene; e aos cuidados de saúde regulares, bem como à nutrição (UNICEF, 2020, p. 2). Em Moçambique, pelo menos 8,5 milhões de crianças deixaram de frequentar a escola devido ao encerramento como resultado da implementação das medidas de restrição impostas pela Covid-19 a nível nacional (UNICEF, 2021). Cerca de 101.000 no ensino pré-primário, 6,9 milhões no primário, 1,25 milhões no secundário e mais de 85.000 alunos no ensino técnico-profissional (UNICEF, 2020). Portanto, as crianças ficaram sem ir à escola, e algumas delas começaram a ter o ensino a distância algo que não foi fácil, pois a maioria das crianças em Moçambique não tem acesso aos canais de informação básicos, o que torna a transição para o ensino à distância extremamente difícil: 74% das crianças vivem sem electricidade e apenas 2% têm acesso à Internet, 35% à rádio e 22% à televisão (UNICEF 2020). No universo das 28 crianças por nós entrevistadas 19 frequentam o ensino público (67,8%) e 9 o ensino privado (32,1%).
No resto do continente africano, de uma maneira geral, foram tomadas algumas medidas baseadas na escola e na comunidade. Por exemplo, adoptaram o ensino remoto para garantir a continuidade do processo de ensino e aprendizagem; apoiaram a prevenção integrada da comunidade, vigilância e detecção precoce de SARS-CoV-2, HIV/SIDA e tuberculose, ligando aos serviços socias e de saúde da comunidade para que atendam crianças e jovens; aconselhamento telefónico para aqueles com altas cargas virais; garantir que as instalações de cuidados pediátricos de alto nível estejam disponíveis para pacientes com Covid 19 graves, de entre outras, (Sunde et al., 2022). Em alguns países como Tunísia, Argélia, Egipto, Marrocos, Benim, Burquina Faso, Cabo Verde, Camarões, Ruanda, Sudão, Uganda, Tanzania, África do Sul, Angola, optaram a semelhança de Moçambique por encerrar as escolas como uma das medidas para proteger as crianças e a reabertura gradual foi acompanhada por medidas como distanciamento social, salas de aulas com número reduzido de alunos, uso de máscara, lavagem das mãos de entre outras, (Pereira & Kowalski, 2020). Contrariamente o Burundi não fechou as escolas e nem as creches, estas continuaram a funcionar normalmente em todo o país (Pereira & Kowalski, 2020). Na Etiópia, quando anunciaram a retoma gradual às aulas, o governo distribuiu 50 milhões de máscaras para 46.000 instituições de ensino, para minimizar a exposição das crianças a contaminação pelo vírus (Pereira & Kowalski, 2020, p. 116). Em Quénia, no período em que as escolas estiveram encerradas, muitas crianças foram expostas a situações de perigo, sobretudo as meninas. De acordo com Pereira e Kowalski as escola em Quénia muitas vezes funcionavam como redes de segurança dificultando ou mesmo impedindo a realização de casamentos precoces e prática de mutilação genital, Pereira & Kowalski (2020). Em Benim, aquando da retoma das aulas, como forma de prevenir que as crianças não fossem retiradas da escola pelos pais para casamentos prematuros devido a dificuldades económicas, um projecto denominado “FAABA-COVID” implementado pela ONG CARE e financiado pela UNICEF e a Embaixada dos Países Baixos, apoiou 26.000 meninas de 9 a 15 anos, beneficiando-as de FCFA 15 mil por criança como forma de ajudar aos pais Pereira & Kowalski (2020). De uma maneira geral, a pandemia da Covid -19 afectou a rotina das crianças e desafiou o seu brincar daí que o nosso objectivo é compreender como é que o brincar das crianças foi reinventado no contexto da Covid-19, descrever o brincar das crianças antes da Covid-19, identificar os desafios de brincar no contexto da Covid-19 e analisar as diferenças no brincar antes e durante a Covid-19.
Metodologia Topo ↑
O trabalho de campo teve início em Novembro de 2019, e em Março de 2020 Moçambique registava o primeiro caso da Covid-19 e o início das restrições. Foi então que nos ocorreu abordar numa das secções da tese acerca do brincar das crianças durante a Covid-19. Para materializar os nossos objectivos optámos por privilegiar a abordagem metodológica qualitativa. O objectivo da pesquisa qualitativa é entender uma situação social, um evento, um papel, um grupo ou uma intenção específica (Mauch & Park, 2003). A investigação qualitativa explora “valores, crenças, hábitos, atitudes, representações, opiniões e adequa-se a aprofundar a complexidade de factos e processos particulares e específicos de indivíduos e grupos” (Paulilo, 1999, p. 135). Para o levantamento de dados para a tese foram contactadas 4 famílias com três gerações, a das avós, a das filhas e a das netas. Foram entrevistadas nas quatro famílias um total de 14 pessoas, sendo quatro avós, quatro filhas e seis netas que são as crianças com idades compreendidas entre os 6 e os 14 anos. Importa referir que os dados obtidos para dar corpo a este artigo foram na base da informação das seis crianças acima mencionadas e mais 22 crianças que são os seus amiguinhos com quem brincam no dia-à-dia no bairro e mais 8 cuidadoras adultas que são as avós e as filhas das quatro famílias acima referidas. Portanto, forneceram-nos informação um total de 32 pessoas sendo 28 crianças das quais 7 meninos e 21 meninas com idades compreendidas entre os 6 aos 14 anos e 8 cuidadoras com idades compreendidas entre os 36 e 72 anos de idade. Importa realçar que as mesmas crianças que participaram desta pesquisa na recolha de dados para a tese são as mesmas que partilharam connosco as suas experiência aquando do período da Covid-19. O trabalho de campo teve início em Novembro de 2019 até 2022 por conta da pandemia da Covid-19 que nos obrigou a interromper a recolha de dados em Março de 2020 e a renegociar com as famílias as modalidades pelas quais daríamos continuidade com a pesquisa. Com algumas famílias realizámos com frequência contactos via telefone e quando a situação da pandemia se normalizou recomeçamos o contacto presencial. A escolha das famílias foi por acessibilidade. Identificámos as famílias recorrendo a conversas informais com pessoas próximas ou conhecidos de pessoas ligadas a nós aonde expúnhamos a nossa preocupação de identificar famílias com três gerações completas e que tenham tido a sua infância na cidade e província de Maputo. Importa referir que procurávamos famílias com avós, filhas e netas que tenham tido a sua infância entre 6 e 14 anos na cidade ou província de Maputo. Não foi fácil encontrar este perfil, pois por vezes a avó poderia ter tido a sua infância na cidade de Maputo e a sua filha e neta não ou vice-versa. Para nossa pesquisa interessava-nos que as três gerações tivessem este perfil para melhor explorarmos suas brincadeiras. Uma vez identificadas, iniciámos a visita às famílias marcando um encontro individual com cada uma delas aonde explicávamos o objectivo da nossa pesquisa e o que pretendíamos delas. Este exercício não foi diferente com as crianças, embora tivéssemos recebido a autorização dos pais através de um consentimento informado para trabalhar com as crianças, fizemos questão de voltar a conversar individualmente com elas e na presença dos pais para explicá-las e esperar a sua resposta. Os bairros onde os nossos informantes residem são os da Coop e Maxaquene na cidade de Maputo e Belo Horizonte, Campoane e Cidade da Matola na Província de Maputo. Para a recolha de dados recorremos a observação não participante, conversas informais e entrevistas semi-estruturadas. Respeitámos as questões éticas e foi pedido o consentimento informado a todas as famílias e todas elas consentiram. Contudo, não quiseram assinar o consentimento informado e dispensaram o assentimento informado para as crianças dizendo que a autorização dos adultos seria suficiente para as crianças participarem da pesquisa e respeitámos essa decisão. Referir que os nomes dos participantes desta pesquisa são fictícios. Às cuidadoras que formam neste caso as mães e as avós, no geral questionámos acerca dos desafios que tiveram para gerir as crianças durante a Covid-19, como foi mantê-las envolvidas nas diversas actividades e sem o risco de contrair a Covid-19. Em relação as crianças questionámos como era no seu dia-à-dia em tempo de Covid-19, se continuaram a estudar, a brincar ou não, ou de que forma continuaram a brincar e o que mudou nas suas vidas com a Covid-19. As informações obtidas através das conversas informais, das entrevistas semiestruturadas, da observação não participativa bem como da revisão da literatura, ajudaram a fazer a análise qualitativa dos dados obtidos e chegar a algumas conclusões.
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Os tipos de brincadeiras
No acto de brincar a criança entra em contacto com a natureza, com brinquedos prontos, com a televisão, de entre outros. Quando ela entra em contacto com a natureza os elementos da natureza a convidam a agir activamente, criativamente no mundo, transformando a matéria a partir de sua imaginação, ao contrário dos brinquedos prontos, ou da televisão, que já possuem forma, função e conteúdo definidos (Leite, 2015). De acordo com Rivero e Rocha (2019) no seu brincar a criança representa vários papéis, sendo a figura da mamã, do papá, do bebé, de um animal e processos de cuidado manifestando a atenção, afecto, solidariedade, proteção, além de manifestações de poder e controle. Antes da Covid-19 as crianças estavam livres para brincar em diferentes contextos, seja no bairro, na escola, no quintal de casa, em casa de familiares, brincadeiras colectivas ou individuais. Algumas das brincadeiras mais frequentes das crianças entrevistadas são, areia molhada, baloiçar, bonecas, cócegas, correr no quintal, dançar, escondidas, cores, escola, espectáculo, fazer desenhos na areia e no papel (casas, pessoas, bolos, etc.), mamã e papá, moda, panelinhas, saltar a corda, T.P.C (Trabalho Para Casa), zoto, varinha na mão de entre outras. Muitas destas brincadeiras as crianças as efectuam nos seus bairros na companhia dos seus amigos, nos recreios nas suas escolas, em casa dos familiares e muitas vezes com um número considerável de seus pares. Outros pontos de brincadeiras acontecem quando as crianças saem para passear nos jardins e feiras, como partilharam a Lilita e a Rica que na Feira de Maputo e no Parque dos Poetas da cidade da Matola gostam de brincar nos carrinhos de choque, no carrocel e em tantos outros atractivos que estes lugares oferecem (Entrevista com Rica, Maxaquene, Abril de 2022 e Entrevista com Lilita, Cidade da Matola, Novembro de 2021).
Passámos a apresentar uma breve descrição que as próprias crianças deram relativamente ao funcionamento de cada brincadeira.
Areia molhada é uma das brincadeiras muito concorrida pelas crianças, pois com recurso a areia e água, moldam diversas coisas e nota-se muita criatividade por parte delas. Por exemplo, constroem casas, fazem bolos, moldam diversos tipos de brinquedos como bolas, motas de entre outros. A Elita referiu que gosta muito desta brincadeira, pois, a sua imaginação fica activada ao criar várias coisas através da areia e da água (Entrevista com Elita, Belo Horizonte, Dezembro de 2020). As actividades manuais são muito importantes para as crianças, pois, elas aprendem bastante através da imitação e da experiência ou seja brincando com a areia elas observam-se mutuamente e deste modo aprendem reciprocamente.
Baloiçar é uma brincadeira muito apreciada por meninas e meninos, por vezes, os meninos improvisam o seu baloiço colocando uma corda na árvore e vão baloiçando. Outras vezes, eles têm os baloiços disponíveis e montados nos seus quintais ou então nos jardins. Numa das nossas visitas encontrámos as irmãs Cecy e Lalita entusiasmadas no seu baloiço do quintal e referiram ser uma das brincadeiras que elas gostam muito e também porque as vezes o pai empurra a elas e que anima muito mais, pois, quando o papá empurra a velocidade é maior e fica mais emocionante (Entrevista com Cecy e Lalita, Campoane, Novembro de 2020).
A brincadeira com as bonecas é mais praticada pelas meninas, e os meninos integram-se nesta brincadeira quando há uma representação da mamã que coloca o filhote na neneca (termo frequentemente utilizado para se referir a colocar o bebé nas costas) e o papá da bebé ao lado da mamã. Encontrámos a Lilita a brincar com as suas bonecas e observámos o quão feliz e empolgada ela estava, pois, estava a “estrear” (sua linguagem para designar as roupas novas que vestia pela primeira vez a sua boneca), a vesti-las com as roupinhas que ela havia feito com a ajuda da sua prima (Diário de campo, Cidade da Matola, 2020).
Brincar de fazer cócegas é feita por meninas e meninos, a mesma consiste em tocar em alguma parte do corpo do seu amigo geralmente nas axilas ou a barriga de modo que o amiguinho se ria até não poder mais. Relativamente as cócegas a Elita partilhou que, “…eu gosto muito de fazer cócegas a minha avó e ela a mim, nós somos muito amigas e gostamos muito de brincar juntas de fazer cócegas…” (Entrevista com Elita, Belo Horizonte, Dezembro de 2020). Esta brincadeira não tem sido só entre crianças, mas alguns adultos também a praticam com crianças.
Correr no quintal é também uma brincadeira de meninas e meninos e consiste mesmo em fazer corridas no quintal de casa. A Rica partilhou que ela gosta muito de brincar de corridas com os amigos do bairro, e com seus primos, pois, “…é preciso correr muito mesmo, se não vão te passar bem mesmo e ficares atrás, e podes perder, não é para brincar é para vunar (empreender a velocidade máxima) de verdade para ganhar…” (Entrevista com Rica, Maxaquene, Abril de 2021).
A brincadeira das cores é praticada por meninas e meninos, consiste em puxar na orelha do amiguinho até que diga três cores diferentes, só se para de puxar a orelha quando completar o número de cores. As irmãs Cecy e Lalita partilharam que gostam desta brincadeira, pois, ajuda a conhecer as cores, “…como anima brincar de dizer cores, até gingar bem para mostrar que conheces muitas cores bonitas, agora quando tu não conheces muitas cores como não anima porque vais estar a repetir as mesmas cores toda a hora, até podem te rir bem mesmo…kkkk …” (Entrevista com Cecy e Lalita, Campoane, Novembro de 2020). As brincadeiras também são importantes no processo de ensino e aprendizagem, nota-se aqui a preocupação das pequenas Cecy e Lalita se esforçarem para conhecerem mais cores, o que lhes ajuda a ter o domínio desta matéria. O sentido de competição também está presente nas brincadeiras, “…se não podem te rir se repetires as mesmas cores, então tens que estar bem preparada para competir na matéria das cores…” (Entrevista com Cecy e Lalita, Campoane, Novembro de 2020).
Brincar de dançar com música de rádio ou por vezes cânticos das crianças é concorrida tanto pelas meninas assim como pelos meninos, que consiste nos dias de hoje em dançar as músicas da “actualidade”, ou seja, e usando a linguagem das próprias crianças “as músicas que estão a bater” e imitam a forma como os artistas dançam. Quase todos os meninos entrevistados referiram gostar de brincar de dançar “…como anima brincar de dançar, e tens que ensaiar muito para dançar bem, e também anima quando sabes muitos passos e os diferentes estilos de dança, eu gosto muito de imitar Mr Bow naquela música dele que está a bater…” (Entrevista com as irmãs Cecy e Lalita, Campoane, Novembro de 2020).
A outra brincadeira das crianças era a chamada Brincar de escola que consiste em brincar de fazer de contas, portanto, simulam estar numa sala de aulas, onde tem o professor e os alunos e imitam uma aula. Nesta brincadeira participam meninas e meninos. A Yone partilhou que “…esta brincadeira é boa porque nos obriga a estarmos bem preparados, eu gosto de fazer o papel de professora, pois, imito os meus professores, a forma como eles falam quando estão a dar aulas e também é preciso dominar as matérias…” (Entrevista com Yone, Maxaquene, Março de 2021). Nota-se neste pequeno extracto que ao brincar as crianças não só reproduzem o que os adultos fazem, neste caso os professores, assim como a partir desta brincadeira elas se preocupam em estudar para ter o domínio das matérias para explicar os seus alunos quando estão a brincar de escola.
Brincar de espectáculo, é concorrido por meninas e meninos, estes, fazem de contas que estão num espectáculo e vão cantando e dançando imitando os diversos cantores e artistas ao seu gosto. Encontrei a Cecy e a Lalita, vestidas a rigor com roupa de capulana, com cenário de palco, prestes a iniciar uma actuação. Observei ali muita criatividade na montagem do seu equipamento, havia ali para além de um palco, o microfone, e algumas cadeiras, cujas espectadoras eram as suas bonecas sentadas para ver a actuação (Diário de Campo, Campoane, 2020). É impressionante ver a capacidade inovadora e criativa das crianças reproduzirem cenários diversos.
Brincar de fazer desenhos na areia e no papel (casas, pessoas, bolos, etc.), consiste em desenhar na areia ou no papel com recurso a um pau ou dedinho da mão, lápis de carvão, lápis a cores e é apreciado por meninas e meninos. A pequena Elita partilhou que “…eu gosto muito de brincar com a areia e moldar muitas coisas, como bolos, casas, enfim, ir criando e inventando aquilo que me apetecer e aparecer na minha cabeça…” (Entrevista com Elita, Campoane, Dezembro de 2020).
Na brincadeira de mamã e papá participam meninas e meninos e consiste em fazer de conta que estão numa casa representando o dia-a-dia de uma família onde tem a mamã, o papá, os filhos, etc. Martins (2006), refere que a brincadeira de faz de conta favorece o processo de desenvolvimento e aprendizagem da criança, tendo em vista que, quando a criança faz essa brincadeira ela aprende a lidar com situações do mundo real, através da representação de cenas, situações e experiências por elas vividas no seu dia-a-dia. Ao brincar de faz-de-conta, as crianças representam aspectos tanto do modo de vida específico de sua comunidade, família, região etc.; quanto da cultura global, incluindo condições sócio-históricas e conteúdos acessados por diversos meios de comunicação como TV, literatura, cinema, livro didático, etc, (Brandão, 2010). Por isso ao brincar às casinhas elas reproduziam cenários que ocorrem na sala de estar, na cozinha, de entre outros.
Brincar de moda, os meninos e as meninas imitam um cenário de desfile de moda e vão desfilando imitando os modelos profissionais. Numa das nossas visitas encontrámos a Rica e as suas amiguinhas do bairro a brincar de moda, observámos o cuidado que tinham com as roupas, os penteados e até o estojo de maquiagem e o sapato biqueira (linguagem das meninas) da mãe haviam sido assaltados, era tanto o profissionalismo e requinte que parecia estarmos diante de verdadeiras modelos e cheias de talento (Diário de Campo, 2022). Ao trazerem para a brincadeira de faz-de-conta as acções da mãe ou do pai ou dos modelos profissionais, que eles veem no seu dia-à-dia, podemos considerar a representação de género em que as crianças se apropriam de situações que acontecem em seu grupo social, interações, espaços e relações com o outro (Colling & Rausch, 2011).
Brincar às panelinhas é mais praticado por meninas e consiste em brincar de cozinhar. As meninas Cecy e Lalita explicaram que,
“… quando brincamos de cozinhar por vezes arranjámos algumas coisas na cozinha da minha mãe para cozinhar de verdade, um pouquinho de arroz, cebola, tomate e outras coisas para cozinharmos. E minha mãe já começou a nos ensinar a cozinhar e a fazer bolos, por isso as vezes cozinhámos de verdade no fogão de verdade com a ajuda da minha mãe...” (Entrevista com Lalita e Cecy, Campoane, Novembro de 2020).
Brincar de saltar a corda é mais praticada por meninas, consiste em saltar a corda, pode ser individual ou colectivamente.
Brincar de T.P.C (Trabalho para Casa – exercícios que os professores indicam aos alunos para realizar em casa no âmbito da consolidação das matérias lecionadas) que significa trabalho para casa, é uma brincadeira de meninas e meninos e consiste em exigir o T.P.C ao amiguinho e este tem que ter a palavra T.P.C escrita na mão, caso não tenha leva palmadinhas nas costas até escrever a palavra T.P.C na sua mão (Entrevista com Cecy e Lalita, Campoane, Novembro de 2020).
Brincar com troncos, paus, tecidos, caixas, ferro, folhas, papel, para fazer carrinhos, bonecas, contruir casinhas e outros objectos. Brincando com estas matérias-primas a criança activa e expressa a sua criatividade e imaginação, cria um conjunto de símbolos, significados, representações que expressam seus sentimentos, ideias, desejos e contextos, algo que vem de dentro dela (Leite, 2015, p. 64). A Rica referiu que adora brincar com papel molhando para fazer bolas. A Cecy e a Lalita gostam muito de brincar com tecidos para fazer roupinhas para as suas bonecas e a Elita vai criando diversas coisas com o papel, folhas, caixas, paus, (Entrevista com Rica, Cecy, Lalita e Elita, Maputo, Abril de 2021).
Varinha na mão é uma brincadeira de meninas e rapazes, esta consiste em se pegar numa varinha e bater nas pernas dos amiguinhos até que este consiga encontrar uma varinha e pegar nas mãos, (Entrevista com Yone, Maxaquene, Março de 2021).
As diversões que os entrevistados mencionaram são andar de bicicleta, assistir bonecos, comer fora, cuidar de cão e gato, cuidar das plantas, ir a feira subir os carros de choque, ir brincar no jardim, ir a piscina e a praia e mexer o celular.
Tipos de jogos
Os jogos mencionados que mais praticam são amelete, apanhada, batatinha frita, berlindes, bola, corridas, daí mesmo, dona Rosa, escondidas, esquimó, gato come o rato, jogar game, latoleta, lencinho caiu na mão, matacuzana, morte a todos, neca, Play Station e zotho.
O jogo amelete é praticado por meninas e meninos em conjunto, é uma espécie de despedida no final de todas as brincadeiras ou quando é chegada a hora de ir para casa. Portanto, eles correm perseguindo-se entre si e tocando-se dizendo “amelete” e assim vão para casa. (Diário de Campo, Dezembro de 2020).
A apanhada é também praticado por meninas e meninos, é o mesmo que zotho, portanto, eles se perseguem e vão se tocando dizendo “ apanhei-te” ou “zhoto”, e o menino que é tocado é que passa a perseguir aos outros, ou seja passa a nholar. Numa das nossas visitas encontrámos por vezes situações de discussão entre as crianças durante as brincadeiras, gritando, ”não aceito é batota (uma espécie de fraude, falta de honestidade durante o jogo)”, (Diário de campo, Abril de 2022). Quando as crianças jogam nem sempre tudo corre bem, por vezes surgem desafios, conflitos, discórdias e é neste ambiente que elas exercitam o convívio social (Cordazzo & Vieira, 2007).
Até amanhã é praticado pelas crianças logo que se encontram para iniciar as brincadeiras, gritam “até amanhã”, (Diário de Campo, Dezembro de 2021).
Batatinha frita, é um jogo praticado conjuntamente entre meninas e meninos, onde um deles tem que nholar de olhos fechados e dizer “batatinha frita 1, 2, 3,” enquanto do outro lado um grupo de meninos vai se aproximando do que está a nholar, e cada vez que ele fecha os olhos e grita batatinha frita 1, 2, 3 ao abrir os olhos se encontrar um menino a mexer-se esse menino perde, e assim sucessivamente, o último menino que consegue chegar aonde o outro está a nholar sem ter sido descoberto a mexer-se ele é que vai nholar (Entrevista com Jó, Campoane Abril de 2021).
Bananô é um jogo em que meninas e meninos brincam juntos, o menino que está a nholar vai gritando “bananô” e os outros respondem “ainda não comeu”, e assim é até que todos se escondam e quando já todos estão escondidos gritam “já comeu”. E começa a procura pelos meninos escondidos, entretanto, se um menino se aproveitar da distração do menino que está a nholar e ir bater no lugar onde ele se encontra este fica isento de nholar na ronda seguinte, o jogo termina quando consegue localizar a todos que estavam escondidos, (Diário de Campo, Dezembro de 2021).
Berlindes, é um jogo praticado por meninas e meninos, mas com tendência de ser mais concorrido pelos rapazes. Neste jogo, dois meninos de cada vez, tem que ter pelo menos dois berlindes e fazem dois buracos em duas extremidades e lançam os berlindes tentando acertar a cova e noutro momento tentando bater o berlinde do amiguinho para entrar na cova feita na areia. Este jogo é praticado de várias maneiras, por exemplo, lançar o berlinde para tentar bater o berlinde do amigo e se bate os berlindes do amigo ficam para o que os bateu, (Entrevista com Jó, Campoane, Abril de 2021).
A Bola, com a bola os meninos jogam futebol, mas também jogam o chamado fintas ou seja tentam evitar que o outro amigo apanhe a bola, então vão correndo com a bola fintando a ele. Tem sido mais concorrido pelos rapazes, mas por vezes encontrámos também algumas meninas a praticar também. A brincadeira com a bola é feita em diferentes formatos, não só o futebol mas também quando tem a de basquete jogam o basquetebol (Entrevista com Jó e Ricky, Campoane, Abril de 2021).
Corridas, as meninas e os meninos em grupos fazem as corridas para ver quem ganha, portanto, quem corre mais do que os outros e corta a meta é que é o vencedor da corrida, (Diário de Campo, Dezembro de 2021).
Daí mesmo, é geralmente mais praticado por meninas, mas por vezes também por meninos. Neste jogo tem que ter uma bolinha fabricada por elas a base de panos velhos ou plásticos e com a bolinha uma menina nhola e tenta ximbar (bater com a bola aos outros) e ao lançar ela grita “daí mesmo” para tenta ximbar as outras e se de facto ximba a amiga ela fica fora do jogo e ela prossegue até conseguir ximbar a todos, (Entrevista com Rica, Maxaquene, Abril de 2021).
Dona Rosa, é um jogo em que uma das personagens chama-se dona Rosa e os restantes são meninas e meninos. Então, a dona Rosa está no quintal da casa dela, enquanto isso do lado de fora um grupo de meninos se prepara para ir à casa da dona Rosa, eles concertam acerca da pergunta que vão fazer a dona Rosa e ela terá que adivinhar. A pergunta pode ser acerca do nome de um fruto, objecto ou comida. De seguida eles vão a casa da dona Rosa, batem a porta e ela os cumprimenta e os pergunta como estão, e os meninos respondem, “assim, assim… e ela pergunta estão a procura de quê? E eles respondem de uma fruta que começa com a letra B ou de um objecto que começa com a letra C, e a dona Rosa tenta adivinhar e quando acerta ela sai atrás dos meninos e se apanha um este tem que ficar na casa da dona Rosa. No processo de perseguir quando o menino entra na sua casa, a dona Rosa já não pode entrar na casa do menino. Entretanto, todas as pessoas que ela apanha ficam na casa da dona Rosa até ela conseguir apanhar a todos e a última pessoa a ser apanhada é que faz o papel da dona Rosa, se a dona Rosa não apanha a ninguém o jogo recomeça com nova palavra para adivinhar. (Entrevista com a Cecy e a Lalita, Campoane, Novembro de 2020).
Escondidas também conhecidas como Tchotchotchoé que é o mesmo que esconde esconde também é um jogo praticado em conjunto por meninas e meninos. Um grupo de meninos juntam-se e tem um responsável por nholar ou seja fechar os olhos e contar até 31 enquanto os outros se escondem, finda a contagem, ele começa a procurar os amiguinhos e cada vez que encontra um ele bate no murro aonde esteve a nholar gritando “31 de Janeiro”. O outro pormenor é que ele tem que ficar atento para que nenhum menino vá bater aonde ele se encontra a nholar, caso isso aconteça, o menino que conseguiu que não o vissem até ir bater no muro fica isento de nholar na próxima ronda. (Diário de campo, Abril de 2021).
Esquimó também conhecido por homem/homem, é mais praticado por meninas, mas por vezes os meninos jogam. Faz-se entre 4 a 6 quadrados no chão, um quadrado para falar nome de objectos, o outro nome de homens, o outro nome de mulheres, de frutas, etc., e em cada quadrado o menino que estiver a jogar deve dizer os nomes correspondentes a cada quadrado e ele não pode pisar a linha do quadrado, portanto, de olhos fechados ele vai dizendo “ esquimó” e os amigos respondem “não” caso não tenha pisado as linhas e vai dizendo os nomes respectivos e se pisa a linha respondem “sim” e ele perde o jogo entrando deste modo o outro menino para jogar (Diário de Campo, 2021).
Fica no meio, é um jogo com a bola e tem sido mais praticado por rapazes, este deve ter no mínimo três rapazes, onde pelo menos um fica no meio enquanto dois se distribuem para as duas extremidades e vão se passando a bola de modo que o que está no meio não apanhe, caso apanhe o rapaz que ao chutar a bola a mesma for recuperada pelo do meio é quem passa a nholar ou seja passa a ficar no meio (Diário de campo, 2021). A brincadeira de Fica no meio de passe ou fica no meio de tocar a bola, segundo o menino Jó pode ser feito por duas pessoas ou mais e consiste em cercar a pessoa que está no meio para que tente levar a bola dos que estão de fora, o objectivo do jogo é a pessoa que está no meio tocar ou levar a bola, esta brincadeira é mais concorrida por rapazes (Entrevista com o menino Jó, Campoane, Abril de 2021).
Gato come o rato é um jogo praticado por meninas e meninos em conjunto, onde um grupo misto em pé faz uma roda e enquanto isso dois meninos nholam um desempenhando o papel de “gato” e o outro o papel de “rato”. O gato vai perseguindo o rato que por sua vez entra e sai da roda e vai passando por baixo dos braços dos meninos que estão na roda e o gato tendo que seguir o mesmo percurso, enquanto isso os amigos da roda vão cantando ”Gato come rato! Gato come rato!” Se o rato for apanhado o gato ganha, mas se este falhar o percurso o rato ganha. (Entrevista com Cecy e Lalita, Campoane, Novembro de 2020).
O jogo de sdrong é feito com pelo menos duas ou mais pessoas e tem sido mais concorrido por rapazes, mas já começam a aparecer algumas raparigas envolvidas no mesmo. Este jogo consiste segundo o Jó em “os meninos irem dando toques com a bola e vão passando um para o outro e a bola não pode sair do ar, a mesma deve ser passada sem cair no chão e caso caia no chão a pessoa que devia receber e não conseguiu mantê-la no ar terá que sair do jogo (Entrevista com Jó, Campoane, Abril de 2021).
Jogar game, são jogos baixados nos celulares, e muito concorridos por ambos, meninas e meninos. Absolutamente todos os meninos por nós entrevistados mencionaram ser um grande atractivo para eles o uso do telefone celular para jogar game, (Diário de Campo, 2021). Mas é importante mencionar aqui que nem todas as crianças tem celulares android, mas outras com telefones mais modestos e algumas delas pedem emprestado os celulares dos seus encarregados para poder jogar ou pesquisar alguma coisa.
Latoleta é um jogo de palmas geralmente praticado pelas meninas e deve ter no mínimo 2 meninas. Este jogo consiste basicamente no movimento das palmas das mãos feito ao ritmo de uma canção entoada pelas participantes, que podem estar frente a frente se forem só duas ou em roda se mais do que duas e vão batendo as palmas das mãos entre si, (Diário de Campo, 2021).
Lencinho caiu na mão, neste jogo os meninos sentam-se no chão fazendo uma roda, e o outro de pé com um lencinho vai cantando “lencinho caiu na mão?” e os outros dizem “não” quando o lencinho ainda não foi deixado nas costas de um dos meninos, e quando já foi deixado gritam “ovo podre”, e o menino para o qual o lencinho foi deixado às suas costas levanta-se com o lencinho, corre atrás do que deixou e este por sua vez corre para ocupar o lugar do amigo e se consegue ocupar ele ganha e o outro tem que nholar, (Explicado pela Lalita, Cecy e seus amigos do bairro, Campoane, Abril de 2022).
Matacuzana, segundo explicou a Rica é um jogo geralmente praticado pelas meninas, o mesmo consiste em se abrir uma cova na areia e inserir doze pedrinhas na mesma. De seguida as meninas ficam a volta da cova segurando uma pedrinha na mão e lançam a mesma ao ar enquanto tira as pedras de dentro da cova. Portanto, começa, por tirar todas as pedras da cova e devolvendo, deixando uma de fora até acabarem e de seguida o mesmo exercício, tirando duas, três e assim sucessivamente até retirar todas para devolver todas. O jogo termina quando a participante segue todas as etapas sem falhar e depois passa para a outra amiga. Encontramos a Rica e um grupo de amiguinhas a jogar a matacuzana e ela partilhou que quem a ensinou a jogar foi a avó e ela ensinou as suas amiguinhas a jogar (Entrevista com Rica, Maxaquene, Abril de 2022).
Mexer o celular/telefone, é um termo usado pelas próprias crianças para se referir aos momentos que pegam no celular para jogar, pesquisar, explorar diversas coisas que o celular oferece. Leite (2015), chamou atenção que a sociedade altamente tecnológica e de consumo tem-se distanciado cada vez mais das actividades manuais em decorrência do tempo que se passa a usar dispositivos electrónicos e deste modo as crianças tem perdido a possibilidade de aprender uma variedade de saberes e fazeres historicamente construídos pela humanidade (Leite, 2015, p. 66). Observámos durante o nosso trabalho de campo que era muito comum o uso do celular pelas crianças e segundo as cuidadoras o uso intensificou-se ainda mais por parte de algumas crianças durante a pandemia da Covid-19, embora nem todas as crianças tenham seus celulares mas elas ainda assim quando tem oportunidade de pedir emprestados aos seus cuidadores elas manejam muito bem (Entrevista com a Sra Quina, Cidade da Matola, Fevereiro de 2021).
Morte a todos é um jogo praticado por meninas e rapazes conjuntamente, neste jogo 2 meninos nholam e os restantes ficam no meio, portanto, numa extremidade fica um menino e na outro fica o outro e lança a bolinha para tentar ximbar os meninos e a medida que são apanhados ficam fora do jogo, até terminar de ximbar a todos (Entrevista com Elita, Belo Horizonte, Março de 2021).
Neca é um jogo geralmente praticado pelas meninas. Faz-se um desenho rectangular no chão e enumera-se de um a oito, o jogo consiste em se lançar uma pedra do primeiro ao último número e a jogadora não pode pisar os riscos e nem a pedra que é lançada deve pousar no risco e muito menos passar o quadrado para o qual está sendo lançado (Diário de Campo, Abril de 2021).
Polícia e ladrão é um jogo praticado por grupos de meninas e meninos. A distribuição do papel do polícia ou do ladrão é feito mediante o abecedário (alfabeto). Após a formação dos grupos, os polícias contam até 31 e os ladrões aproveitam para se esconder, e de seguida os polícias gritam “folga” enquanto eles próprios se posicionam e de seguida gritam “fogo” e inicia o processo de disparos. Tanto os polícias como os ladrões arranjam armas simbólicas feitas a base de pau, pedra ou qualquer outro material disponível. Se os polícias conseguem matar os ladrões na etapa seguinte eles ficam os ladrões e se os ladrões derrotam os polícias estes voltam a nholar (Diário de Campo, 2021).
Play Station (PS) é um aparelho que se usa para conectar a televisão para poder jogar e o mesmo pode vir acompanhado de discos de jogos, ou podem se baixar jogos on line. O menino Jó partilhou que o PS é geralmente mais apreciado pelos rapazes, mas as raparigas também jogam e a tendência é de haver cada vez mais raparigas a apreciar e a jogar o PS, ele referiu que ultimamente tem jogado também com raparigas o que não acontecia antes (Entrevista com Jó, Campoane, Fevereiro de 2021). Alguns adultos juntam-se às crianças para com elas jogar o PS. Nem todas as crianças tinham o PS, mas reparámos que em alguns bairros as crianças que tem convidam os seus amigos para juntos jogarem.
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A rotina das crianças durante a Covid-19
Quando o espaço das crianças para a prática de actividades físicas e lúdicas, se restringe ao da casa, e dependendo da situação socioeconómica das famílias, esse ambiente pode se tornar ainda mais restritivo da liberdade e ser estressante para elas (Menezes, 2021). A situação pode se agravar pelo facto dos pais, ou outros responsáveis pelas crianças, necessitem de dar sequência ao trabalho, no formato “trabalhar a partir de casa”, e, ao mesmo tempo, gerir os afazeres domésticos, bem como manter os cuidados básicos com as crianças, acabando deste modo se tornando stressante para todos os intervenientes (Silva et al., 2022). A Sra Rosta mãe e cuidadora da Yone referiu que foi desafiante gerir as crianças e de certa forma mante-las ocupadas, “…tive que desenhar uma rotina para elas, onde participavam das actividades domésticas, estudos e tempo para brincarem e aqui tive que em algum momento brincar com elas e ao mesmo tempo tentando observar medidas mínimas do protocolo da Covid-19” (Entrevista coma Sra Rosta, Maxaquene, Abril de 2021).
Antes da pandemia da Covid-19 cuidar dos filhos não era responsabilidade exclusiva dos pais, mas em alguns casos podia haver apoio de empregados (que em muitas situações tiveram que dispensar seus serviços por causa do contexto em que se estava a viver), familiares, escolas e outros (Silva et al., 2022). Com o Covid-19 os filhos passaram a ficar apenas em casa e sob a responsabilidade dos pais e encarregados de educação. Este factor sobrecarregou os pais e responsáveis pelas crianças, pois, por um lado tiveram que se desdobrar entre cuidar dos filhos e as actividades do trabalho e outras tarefas domésticas. O que obrigou as famílias a reinventarem-se para dar resposta aos desafios que lhes eram impostos. Os responsáveis pelas crianças tiveram que encontrar formas de entreter as crianças em casa, brincando com elas ou organizando actividades para elas praticarem. É assim que algumas crianças passaram a ver mais televisão e a usar mais o celular. A Sra Tininha referiu que a sua neta passou a usar mais o celular e a ver mais televisão pois muitas vezes não tinha muitas opções de brincadeiras acabando por se ocupar mais com o celular e por outro lado porque as aulas online obrigavam o uso do celular, (Entrevista com a Sra Tininha, Belo Horizonte, Dezembro de 2020). Um estudo feito por Malvera et al. (2024) em Canoas-Brasil durante a pandemia de Covid 19 envolvendo 20 crianças na faixa etária de 7 anos e seus respectivos pais referiu que todos os pais entrevistados afirmaram que os seus filhos estiveram expostos a alguma forma de tecnologia e que todas as crianças faziam uso diário de aparelhos tecnológicos. Ficar em casa todo o tempo gerou em algumas crianças mudança de comportamento, sintomas de agitação e ansiedade e dependência excessiva dos pais, distúrbios no sono, stresse e medo (Silva et al, 2022). Entretanto, o facto das crianças e seus pais estarem em casa também criou por um lado condições para ficarem mais próximos, unidos e coesos, mas por outro lado algumas tensões e conflitos. Ou seja, desenvolverem actividades conjuntas, trocar mais carinho, o que uniu ainda mais algumas famílias, mas também a permanência de todos em casa, desafiou os cuidadores que tiveram que gerir a casa, cuidar das crianças, suas mudanças comportamentais em alguns casos. A Yone partilhou que,
“(…) desde que Corona começou eu fico mais com a minha mãe e o meu irmão e isso agrada muito, pois minha mãe brinca connosco, varemos e limpámos a casa juntos, vemos televisão juntos e isso me deixa muito feliz, antes de Corona a minha mãe tinha que sair para o trabalho e não era frequente estarmos todo o momento juntos (…)” (Entrevista com Yone, Maxaquene, Abril de 2021).
Constata-se portanto que um dos aspectos que afectaram as crianças foi o espaço para brincar, que em alguns casos teve que se restringir a apenas ao quintal da casa e não mais no bairro com os amiguinhos ou aos pátios da escola com os coleguinhas. No caso das crianças com quem interagimos nesta pesquisa, as suas habitações têm um quintal, algumas com quintal com maiores dimensões e outras nem tanto mas ao menos todas elas com um espaço para brincar o que não as restringiu a estar apenas dentro das suas casas. Um estudo feito no Brasil durante a pandemia mostrou que algumas crianças passaram a brincar mais dentro de casa e especificamente na sala de estar, que acabou se transformando num palco de quase todo o tipo de brincadeiras, Meirelles et al (2022) A Cecy e a Lalita desabafaram dizendo que,
“(…) neste tempo de corona sinto muita falta de brincar no bairro com as minhas amigas e saudades de brincar com as minhas colegas da escola, mas o quintal da minha casa é muito grande e dá para brincar, assim não tenho que ficar só dentro de casa, mas faltam nossos amigos…eishi…não vejo a hora de corona acabar para eu puder sair para brincar” (Entrevista com Cecy, Campoane, Novembro de 2020).
Pastore & Pires (2020), num estudo sobre crianças moçambicanas em tempo de distanciamento social referiram que com a pandemia e o isolamento social as crianças foram inventando modos novos de agir e de se relacionar num contexto em que o espaço e o tempo eram desafiados, o que pode ter gerado nelas por um lado o sentimento de falta de expressão de liberdade, criação e sentidos mas por outro impulsionado inovação e criatividade (Pastore & Pires, 2020). A Cecy e a Lalita partilharam que no começo da pandemia nem no quintal brincavam pois tinham medo que através do ar lá de fora ficariam contaminadas (Entrevista com Cecy e Lalita, Campoane, Novembro de 2020). As mesmas partilharam que a mãe se zangava muito com elas pois brincavam zotho na sala de estar, daí mesmo, escondidas, corriam por toda a casa e quase partiam objectos na sala de estar, foi a forma que reinventaram continuar a brincar (Entrevista com Cecy e Lalita, Campoane, Novembro de 2020). Estes depoimentos têm factos que mostram que nem sempre a convivência foi pacífica entre as famílias, mas houve desafios de gerir as crianças, manter a casa organizada de entre outros aspectos.
Jorosky & Barros (2020), referem que era necessário também cuidar das emoções, sentimentos e afectos das crianças em tempos de Covid-19 visto que foi um momento conflituoso para todos, mas sobretudo para as crianças que viram, repentinamente, perdidas muitas das garantias quotidianas que lhes geravam a importante sensação de segurança. Tiveram, assim, suprimidos seus espaços de brincar, o contacto físico com o outro, o movimento de aprender colectivamente e de expressar seus afetos (Jorosky & Barros, 2020). A Elita referiu que “(…) agora com Covid como não anima, já nem posso brincar com minhas amigas, já não posso passear, já não posso sair para o restaurante e nem fazer compras com a minha mãe, é só ficar em casa, estou muito triste (…)” (Entrevista com Elita, Belo Horizonte Dezembro de 2020). O extracto mostra como a rotina das crianças teve que mudar drasticamente e como ficaram emocional e psicologicamente afectadas, o que exigia dos seus cuidadores muita atenção e acompanhamento as mesmas. A Rica desabafou que “agora com Covid estou sempre em casa e faço mais tarefas domésticas, lavo muita loiça e eu não gosto nada de lavar a loiça” (Entrevista com Rica, Maxaquene, Abril de 2021).
Relativamente ao encerramento das aulas, a Rica que estuda numa escola pública, partilhou que,
“(…) agora com corona devíamos todos ficar em casa, mas de quando em vez, temos que ir levantar fichas na escola, e outras vezes, temos aulas através da televisão e nem sempre entendo as matérias (…) certa vez minha mãe foi à escola para levantar as minhas fichas e havia uma enchente muito grande e minha mãe disse que ficou muito triste porque estava cheio de crianças lá, quando deviam ficar em casa para o corona não lhes apanhar” (Entrevista com a Rica, Maxaquene, Abril de 2021).
O sistema nacional de educação criou condições para que algumas aulas fossem transmitidas na televisão pública para permitir que os alunos continuassem com os estudos a partir de casa. Mas este modelo não foi abrangente para todas as crianças conforme os dados da UNICEF, 74% das crianças vivem sem electricidade e apenas 2% têm acesso à Internet, 35% à rádio e 22% à televisão (UNICEF 2020, p. 3-4). Outro formato adoptado pelo sistema educacional público foi a produção de fichas e textos de apoio que as crianças ou seus encarregados de educação deviam ir levantar na escola conforme reportou a Rica. Esta medida acabou perigando a vida de algumas crianças e não só, cujos encarregados não podiam ir levantar as fichas por elas pois muitas vezes havia aglomerados nas escolas para o levantamento dos materiais o que acabava violando as orientações do governo para a prevenção da Covid 19. Por outro lado, como partilhou a Rica nem sempre ela compreendia as matérias, o que levantava um outro desafio de haver mais um acompanhamento a partir de casa e nem sempre os encarregados podem apoiar neste aspecto o que pode acabar comprometendo o desempenho das crianças. Já a Elita que estuda no ensino privado partilhou também a sua experiência em tempos de Covid 19 dizendo que “…estou em casa mas continuo a ter aulas como se estivesse a ir para a escola, tenho aulas online quase todos os dias e trabalhos para casa também (T.P.C) e é preciso ter megas todos os dias para ter aulas” (Entrevista com Elita, Belo Horizonte, Dezembro de 2020). No ensino privado algumas escolas lecionavam as suas aulas virtualmente, o que foi também desafiante para as famílias pois deviam garantir o acesso a internet para que tal acontecesse e também as crianças deviam ter algum acompanhamento sempre que possível para garantir que de facto elas estavam a acompanhar as aulas. Portanto, foram tantos os desafios para garantir que as crianças continuassem a estudar. Segundo a UNICEF (2020, p. 4) havia riscos de que uma suspensão escolar prolongada trazer dentre outros factores efeitos sobre aqueles que regressam à escola, e resultar na repetição do ano escolar e na deterioração do aproveitamento escolar.
Reinventar o brincar durante a Covid-19
Brincar é uma das características fundamentais das crianças e questionámos a elas se ainda continuavam a brincar ou não e se o faziam como antes da Covid-19. A Lalita e a Cecy referiram que pelo facto de ficarem mais em casa, passaram a brincar muito mais que antes da Covid-19 mas a diferença é que brincavam sem os amigos e já não era possível brincarem todo o tipo de brincadeiras de antes visto que algumas brincadeiras exigem o envolvimento de muitas crianças,
“(…) nos tempos de Covid já não podemos jogar zoto, matacuzana, ntchuva, o espetáculo, passamos a desinfetar sempre que brincámos. Só brincamos nós as duas em casa e brincamos com baloiço, moda, espectáculo, brincámos de fazer compras na loja, fazemos roupinhas para as nossas bonecas (laços, tops, vestidos, saias) e aprendemos a fazer as roupinhas na internet...” (Entrevista com Cecy e Lalita, Campoane, Novembro De 2020).
O extracto indica que pelo contexto em que se vivia algumas brincadeiras já não eram praticadas. O Nico partilhou que,
“(…) agora as brincadeiras mudaram, já não subo nas árvores, escondidas, o zotho brinco ainda com o único amigo que tenho. Mas fico mais em casa a assistir, minha mãe me empresta o cell dela para eu jogar um pouco, brinco com o bebé, às vezes saiu para jogar futebol, andar de bicicleta e fazer corridas no quintal com o meu único amigo enquanto antes da Covid brincava com muitos amigos (…)” (Entrevista com Nico, Maxaquene, Março de 2021).
O depoimento apresenta que por um lado algumas brincadeiras ficaram para atrás, o contacto com os amigos já não era possível e os locais das brincadeiras se restringiram a casa. Um estudo feito por Santos & Silva (2023) com crianças de alguns municípios da Bahia em Brasil mostrou que durante a pandemia da Covid-19 as mesmas passaram mais tempo em casa e brincando mais com recurso a brinquedos industrializados e à tecnologia e um pouco menos com brincadeiras livres com temas diversos e outros jogos. Apesar do contexto que se estava a viver as crianças não deixaram de brincar, elas continuaram a o fazer nas condições em que eram possíveis. O amiguinho da Lalita e da Cecy partilhou que, “…minha mãe só deixa um único amigo entrar para o nosso quintal brincar comigo, ele é o meu melhor amigo, mas ele coloca máscara e eu também e jogámos futebol com máscara mas por vezes roubámos e baixámos a máscara porque é sufocante jogar com máscara…” (Entrevista com o amigo da Cecy e da Lalita, Campoane, Novembro de 2020).
A Elita partilhou que para não deixarem de praticar certas brincadeiras ela e os primos com quem vive fizeram alguns ajustes,
“(…) eu gosto muito de brincar escondidas e eu e os meus primos brincávamos dentro de casa, ou me escondia por trás dos armários, no quarto da minha avó, eishii os meus primos como sofriam para me encontrar e por vezes minha mãe zangava pois desarrumávamos muito a casa, mas lá fora era mais divertido pois havia mais esconderijos. E eu e os meus primos uma vez tentámos inventar um baloiço numa varanda lá de dentro, mas não deu certo, queríamos continuar a baloiçar mas dentro de casa (…)” (Entrevista com Elita, Dezembro de 2020).
A Elita e os primos tiveram que reinventar os esconderijos para continuar a brincar escondidas. A Lilita partilhou em forma de segredo o seguinte,
“(…) não conta para minha mãe ouviste! Uma vez eu roubei de levar um pouquinho de areia para o meu quarto para animar bem de eu brincar de cozinhar com minhas lenhas, eu estava com saudades de cozinhar com minhas panelinhas lá fora, isso foi no inicio do Corona quando minha mãe não me deixava brincar no quintal e eu só ficava dentro de casa (…)” (Entrevista com Lilita, Cidade da Matola, Dezembro de 2021).
Esta foi a reinvenção da Lilita para continuar a brincar com as panelinhas nos moldes que ela fazia no seu quintal, trazer a areia para o seu quarto.
Outro aspecto referido pelos meninos foi o uso mais frequente de celular para jogar game e ver televisão que passou a ser cada vez mais recorrente do que antes da Covid-19. No geral nota-se que as crianças com quem interagimos tiveram a tendência de deixar de brincar colectivamente e sobretudo com as crianças do bairro e passam a brincar sozinhas ou com as crianças com quem vivem e por vezes com seus respectivos cuidadores. Situação que não foi igual para todas as crianças, infelizmente, algumas tiveram que continuar na rua por questões de sobrevivência, vendendo nas ruas, algumas por não ter quem as possa cuidar continuaram também expostas a todos os perigos da rua.
Algumas crianças partilharam que passaram a brincar muito mais no tempo da Covid em relação ao período anterior e por vezes sem hora para brincar, ou seja, poderia ser no período de dia ou mesmo a noite. Isto porque já não iam para a escola e estando mais tempo em casa facilmente conseguiam fazer arranjos para encontrar mais tempo para brincar. Enquanto que quando iam à escola o brincar poderia depender do horário da escola, se a tarde como a Rica, praticamente não poderia brincar mais, pois no período da manhã terminava de estudar e fazer os T.P.C’s e preparar-se para a escola e regressava só no final da tarde já cansada e sem muito espaço para brincar, o que significava que brincava mais aos finais de semana (Entrevista com Rica, Maxaquene, Abril de 2021). A Rica também partilhou que passou a desempenhar mais tarefas domésticas durante a Covid do que antes e referiu também que passou a dormir um pouco mais. Nota-se que os desafios não foram poucos, mas as crianças sempre conseguiram se reinventar para brincar.
A Elita mencionou que durante a Covid 19 aprendeu com a mãe a ganhar gosto em cuidar das plantas, cuidar e brincar com animais, (Entrevista com Elita, Belo Horizonte, Dezembro de 2020). A Rica partilhou que “(…) eu descobri que gosto de desenhar no papel e faço coisas muito bonitas e gosto muito de fazer muitas coisas com o papel, o lápis de cor, aguarelas, guache, é muito divertido. Antes eu tinha menos tempo para brincar com o papel, (Entrevista com Rica, Maxaquene, Abril de 2020). A Yone partilhou que a mãe lhe ensinou a fazer hortas porque tanto ela como mãe tinham mais tempo para o fazer do que antes (Entrevista com Yone, Maxaquene, Abril de 2021). Algumas crianças partilharam que passaram a estudar mais, e a desenvolver o hábito de leitura, pois não só tinham as aulas on-line mas depois eram indicadas actividades e os pais estavam mais tempo em casa para pode supervisiona-las e coloca-las a estudar (Entrevista com Érica, Maxaquene, Abril de 2021; Elita, Belo Horizonte, Dezembro de 2020). Quase todas elas estavam tristes pois já não podiam fazer algumas coisas de que mais gostavam antes da Covid -19 como por exemplo ir às compras, ao restaurante, à praia e piscina, visitar amigos, passar férias fora de casa, viajar, ir aos parques e jardins, ir ao cinema e ao teatro e por não poderem brincar como antes.
| Brincadeiras antes da COVID-19 | Brincadeiras durante a COVID-19 | Brincadeiras com espaços de prática reinventados |
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Fonte: Elaborado pelas autoras com base no trabalho de campo, Abril de 2022.
A Tabela 1 apresenta as brincadeiras antes e durante a Covid-19. As crianças não deixaram de brincar mas, reiventaram os espaços que elas tinham disponíveis para brincar. Por exemplo A Lilita gostava de brincar de cozinhar na areia, usando lenha e teve que tirar areia as escondidas para o seu quarto. A Elita e os primos continuaram a brincar escondidas, zotho, dentro de casa, recorrendo aos compartimentos da casa. Estes são alguns exemplos para mostrar que de uma maneira geral, as crianças usaram da sua criatividade e imaginação para não deixar de brincar e por vezes readaptaram algumas brincadeiras tendo em conta os espaços que tinham disponíveis. Esta pandemia mostrou que não se deve esquecer que brincar faz parte da criança e é importante para o seu desenvolvimento. Assim sendo os cuidadores devem criar condições para que esta actividade ocorra acautelando o contexto em que se está a viver. Por exemplo, recorrer ao uso de materiais locais e objectos que podem parecer um desperdício, mas os mesmos podem servir para improvisar brinquedos, como por exemplo a carcaça de coco, massala, garrafas plásticas, de entre outros. O recurso a planificação de actividades diárias para as crianças, com intervalos para brincar, fazer hortas, desenhar, de entre outras podem ajudar a ocupar a criança para que ela não fique agitada, deprimida, com distúrbios psicológicos por conta do contexto que se possa estar a viver.
Considerações Finais Topo ↑
Brincar é parte da criança e do seu dia-à-dia. Com a pandemia da Covid-19 as crianças ficaram de certa forma privadas ou limitadas de brincar. A sua rotina ficou afectada e houve necessidade de se reinventarem para responder ao novo contexto que se estava a atravessar. As restrições impostas pela Covid-19 afectaram os espaços para as brincadeiras. Os meninos e as meninas, já não mais poderiam brincar no bairro, na escola ou mesmo na casa de amigos ou familiares, o espaço para brincar ficou restringido ao quintal de casa ou dentro de casa. Nem todas as crianças tiveram o privilégio de não ficar tão expostas à este vírus. A Rede da Criança (2020), mostrou que muitas crianças continuaram nas ruas, ora trabalhando para o sustento das suas famílias, ora brincando, pois não tinham quem as pudesse controlar. Um dilema enfrentado pelo nosso grupo alvo, estava ligado à restrição de não sair de casa e consequentemente não ter contacto com as outras crianças. Este factor afectou as brincadeiras, pois muitas delas, segundo as próprias crianças, são mais atractivas e animadas quando praticadas em grupo. Neste contexto, tiveram que ser praticadas individualmente, com as crianças de casa ou em alguns casos com a participação dos adultos quando fosse possível. O fenómeno do uso excessivo do celular que já era um grande desafio antes da pandemia, agravou-se durante a pandemia segundo relataram as crianças e suas respectivas cuidadoras. Face a algum tipo de situação de calamidade e que possa comprometer o brincar das crianças, há necessidade dos cuidadores serem proactivos e garantir que as crianças possam brincar. Os materiais locais podem servir para produzir brinquedos envolvendo as próprias crianças, e a planificação de actividades diárias para as mesmas podem contribuir para a situação de calamidade que se esteja a atravessar seja minimizada para a criança, ao mesmo tempo que se garanta que ela brinque. No contexto da Covid-19 que se estava a atravessar, as crianças não deixaram de fazer uma das coisas que elas mais gostam que é brincar, mas elas reinventaram-se para o fazer.
Contribuição dos autores
Os dois autores fizeram uma contribuição significativa no trabalho, quer seja na concepção, execução, aquisição de dados, análise e interpretação; tomaram parte na preparação e revisão crítica do manuscrito; deram a sua aprovação na versão final do manuscrito submetido para ser publicado; participaram na selecção da revista em que o manuscrito foi submetido e tem responsabilidade em todos os aspectos relacionados com este trabalho.
Interesses conflitantes
Os autores declaram não haver potenciais interesses conflitantes no que diz respeito a pesquisa, autoria e publicação deste artigo.
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